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O homem visível

Então, num repente, percebeu que o notavam. Por onde passava, nos caminhos de seus trajetos mais cotidianos, eram muitos e distintos olhares para si, uma senhorinha com a sacola de compras, uma criança arrastando a mochila da escola e logo em seguida sua mãe que parecia distraída no telefone celular, uns minutos depois um rapaz parecia encantado, um homem de grande bigode surpreendido, mais tarde até moça-caixa do supermercado do bairro puxou assunto enquanto digitava o código de barras. Ele, que nascera com a capa da invisibilidade, estava se sentindo quase nu diante das gentes, reflexo que o levou até o espelho de casa. O que estava acontecendo?

 

Receoso do que poderia encontrar em si, antes de ir ao banheiro ele decidiu primeiro sentar-se no banco da cozinha, acendeu um cigarro, passou um café solúvel. Recobrou os olhares das gentes e então se deu conta de que tremia, movimentos involuntários orquestrados pelo corpo. Quase não bebericou a bebida artificiosa. Fumaça pra aqui, fumaça pra ali e a dúvida pairando entre um anel e outro no ar suspenso. E se fosse tudo imaginação? Coisa de escritor, alguém iria concluir, tudo é fantasia, tudo é invenção, que realidade que nada, né, bom mesmo é viver em páginas, cabe tudo numa folha em branco. Mas e se houvesse de fato algo consigo que não reparara antes? Seriam manchas? Uma doença infecciosa, um câncer de pele, estaria mal vestido? Tocou-se com as pontas dos dedos sobre a face, parecia tudo certo, tudo no lugar. Assim, não suportou mais a espera e correu até o espelho do banheiro, o único da casa. E, boquiaberto, deparou-se com o armarinho vazio.

 

Era um pesadelo acordado, sem possibilidade de ir-se embora ao abrir os olhos. Escondiam-no de si mesmo, agora era isso de ser visto apenas pelos outros, por que não notara a ausência do reflexo, desde quando não se olhava? Pousou as mãos sobre o rosto. Não, não, não, estava exagerando, tinha essa mania de superlativar a vida, não havia nada de errado consigo, imagina, você não tem nada especial, meu querido, nem para o bem nem para o mal, você é como toda a gente, ou como quase toda a gente, dois olhos encilhados, sobrancelhas, duas orelhas, uma boca, um nariz e duas narinas, lábios, dentes completos exceto os sisos, cabelo pouco mas cabelo, dois braços, duas mãos, dez dedos (cinco em cada), duas pernas, dois pés, dez dedos (cinco em cada), tronco, pelos, pênis, rabo. Tranquilizado pelas conclusões, adormeceu com a promessa de que no dia seguinte tudo estaria de volta como sempre estivera. E dormiu o sono dos enganados.

 

Acordou manhã cedo, hora de ir para a vida do trabalho, fazer o quê, é preciso coragem para tudo mesmo. Receoso, vestiu boné, óculos bem escuros e, pé ante pé dentro dos tênis coloridos, ouvia Adriana Calcanhotto nos fones d’ouvido enquanto descia ladeira abaixo para pegar a condução. A rua estava vazia, ufa, não era preciso olhar para ninguém. E nem ser olhado. Sentia-se até feliz, apesar do susto anterior, e repetia mentalmente os sambas que eram graciosos. Entrou no ônibus, buscou o assento mais discreto, não encontrou, ficou de pé num canto. Cabisbaixo como um bom mineiro, repassava tudo o que tinha a fazer, todo seu plano: ia para uma conferência na universidade sobre literatura contemporânea, depois um café com um amigo querido, mais tarde compras para assar um peixe (batatas, pimentão, cebola, alho, cheiro verde, tomates), em seguida uma siesta e depois do almoço a sequência do conto sobre um homem invisível e, para finalizar o dia, a leitura de... E foi interrompido pelo beijo na boca de um desconhecido.

 

Agora, sim, de fato, todos na condução olhavam para ele(s), uns com espanto, outros com admiração, alguns com inveja (branca, claro), outros com repulsa e nojo, tem isso de um beijo pode outro não, difícil entender, era um beijo apenas, um beijo, duas bocas. Desceu atônito na primeira estação possível, o coração em marcha. O desconhecido seguiu-o num impulso antes que as portas se fechassem. Ele andava depressa com a mochila nas costas quando a mão sobre os ombros o parou. Virou-se e daí tiraram-lhe os óculos bem escuros. Abaixou a cabeça, mas era inevitável mirar aquele homem. E então viu sua imagem na retina do desconhecido e impressionou-se: não era fantasia, era real, parecia-se consigo, mas era mais. O homem disse-lhe: “Você é bonito. Não vá embora. Estou de olho em você há muito tempo”. E então ele se viu, íntegro, sincero, como nunca, os pelos emoldurando o rosto, aquele rosto que se achava tão invisível, tão despercebido. Fora necessário um artifício para que. Silêncio. Abraçou o desconhecido, emocionado, descortinado, nu entre as gentes da estação. Era uma sensação diferente, nova, não havia medo. Mais tarde compreenderia tudo lendo em Didi-Huberman que “o que vemos só vale – só vive – em nossos olhos pelo que nos olha”. Vendo-o, viu-se. E sua capa da invisibilidade desprendeu-se do corpo, levada pela ventania que num instante varreu a estação.

 

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