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Leitura de domingo: "Tempo de trevas"

25 de setembro de 1994, a leitura da Casa era a crônica da Senhora H no Correio Popular da cidade: 

 

"O que eu queria mesmo é arrebentar meu lado compassivo, não sofrer mais de piedade, ficar dura como o quê? Como granito, diamante, como a jiribaita de algum jegue-gorila, ou ficar gling glang bossa Ofélia caindo dentro de regatos, lerda abobada, ou fazer lobotomia e ficar fria. Porque convenhamos , fofada, você abre revistas e jornais e estupidez grassando do Oiapoque ao Chuí e também lá longe nos confins do lá e do daqui. A maldade tomando corpo a cada dia, povos inteiros abandonados, a crueldade fazendo parte cada dia, povos inteiros abandonados, a crueldade fazendo parte cada vez mais do cotidiano, chineses largando criancinhas do sexo feminino no lixo para morrerem de fome, a Bósnia que ninguém resolve, Haiti Honduras Ruanda aquele horror, o Nordeste continua o mesmo, sede, miséria extrema e a pança de alguns cada vez mais avantajada.

 

Outra coisa: alguém tem que fazer uma lei que proíba circos explorando e maltratando animais. Leões famintos, camelas velhas morrendo a porretadas, elefantes trabalhando com as costelas quebradas, hipopótamos secando esgruvinhados sem uma poça d’água... Só falta crucificar passarinhos para gáudio de caterva e da gurizada! eta mundão bão! Que tal uma praga de bruxa pra os donos de circo: nascer cadela espúria no planeta Terra!

 

Um boçal lá no Rio, universitário (!), saiu do bar e foi urinar na cabeça de um cachorro que estava sendo conduzido pelo dono. O dono do cachorro deu uma porrada no boçal, coisa muito pertinente que eu também faria se urinassem na cabeça do meu. E aí cinquenta boçais (sois disant universitários!) quiseram linchar o dono do cachorro, dono esse que se escondeu em uma loja que foi inteira depredada e aí chegou a polícia e o cara se salvou. Praga de bruxa: cinquenta jegues urinando nas cabecinhas preclaras. Ô mundo trevoso e duro, a gente sempre caindo despedaçada dentro do mata-burro! Tem uma nove milímetros por aí? Tem veneno de rato? Tem excremento de dono de circo pra cair fulminada? Tem uma corda? Alguém pode matar meu lado compassivo? Mandem receitas, por favor! ou navalhas, guilhotinas ou quem sabe um chupa-umbigo pra me alegrar nesta manhã tristíssima de domingo!"

 

* Esta e outras crônicas podem ser lidas na edição "Cascos & Carícias & outras crônicas (1992-1995)" de Hilda Hilst, Ed Globo, 2007.

 

Ph: Acervo do Instituto Hilda Hilst - Casa do Sol

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