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A morte do Preto Barqueiro

 

Naquela tarde, como nenhum dos empregados compareceu ao trabalho, concluíram os moradores da Casa que deveriam, eles mesmos, realizar o funeral. Não era um acontecimento inédito, ao contrário, compunha a tessitura daquele cotidiano, menos agora quando havia menos deles. “Todo ser vivente ao morrer merece uma sepultura, onde quer que seja, importa mais o gesto e sentimento daqueles que ficam de cavar no solo se preciso for, com pás, enxadas, escavadeira, força e um tanto de suor”, refletia o Senhor Cara de Cão para a Senhora H enquanto espreitavam, invisíveis, o Senhor A, Pequena Olga e Crionça abrirem uma cova sob a sombra do flamboyant.

 

“Esse jardim foi se tornando um cemitério, tantos mortos", disse a Pequena com gravidade enxugando o suor do corpo: “Os cachorros mais íntimos estão perto da Figueira”, revelou ao Senhor A que, pela primeira vez, ajudava a enterrar por suas próprias mãos um ser vivo, agora morto. “Está fundo o suficiente. Minhas costas doem. Vamos buscá-lo”, pediu Crionça à mãe. Estirado atrás do canil, entre folhas secas e o chão frio de cimento, lama e lodo, jazia o Cão Barqueiro, ou Preto, as quatro patas esticadas, o olho arregalado. Assustara-se no momento da visita da Grande Senhora? Tinha 13 anos, era o último filho de Sílvia e um cão muito singular e poético, pois mesmo com as portas abertas do canil, nunca saía de lá, senão uns poucos passos da entrada. E não era de se envolver em brigas com seus companheiros, o que definia mais ainda sua particularidade.

 

O Senhor A apenas contemplava, não conseguia mover-se para carregar o corpo: “Fecham-se os olhos de um cão? Teriam os cães alma, de fato?”, pensou, mas nada disse aos outros. Crionça e Pequena Olga, cada um agarrando duas patas do Barqueiro e caminhando com dificuldade, todo corpo morto tem seu peso, conduziram-no à sua nova morada. O Senhor A, imóvel, revirava-se em sentimentos novos. A Pequena Olga trouxe uma toalha e um regador: “Precisamos cobri-lo e banhá-lo em água. Os outros podem sentir o cheiro e decidir cavar.” E observou os cães que acompanhavam o rito. Compreendeu o Senhor A, comovido e profundamente marcado pelo acontecimento: “Quando o homem decidiu enterrar seus mortos, curvou-se apaixonado diante da existência e chamou esse gesto de Amor.”.

 

Fragmento de "A Casa da Senhora H", romance em construção de Juarez Guimarães Dias.

Ph: Instituto Hilda Hilst

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