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Ser Escritor (no Brasil)

A escritora Lygia Fagundes Telles, na única vez em que nos falamos ao telefone, afirmou sem rodeios: “É muito difícil ser escritor num país de analfabetos”. Hilda Hilst, por sua vez, repetia em entrevistas: “Escreva em inglês. Português ninguém conhece”. Infelizmente a leitura se elitiza e se restringe num país como o nosso pela falta de acesso da maior parte da população a uma formação educacional pública mais sólida e consistente, ou mesmo pela falta de incentivo e exemplos, que colaboram na construção do hábito, em todas as esferas da nossa vida social: família, escola e relações de amizade, afetivas e profissionais. Assim, questão posta: escrever para quem?

 

A última edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada em 2016 pelo Ibope e encomendada pelo Instituto Pró-Livro, revela que há 56% de leitores no Brasil, sendo “leitor” entendido como quem leu, inteiro ou em partes, pelo menos 1 (um!) livro nos últimos três meses; a média brasileira é de 4,0 livros por ano, sendo que apenas 2,43 são terminados, perdendo para o México (2,9), Argentina (4,6), Chile (5,4), Portugal (8,5) e Espanha (10,3). O livro mais lido no Brasil, disparado, em qualquer nível de escolaridade, é a Bíblia (!). Numa perspectiva de gênero, as mulheres leem mais (59%) que os homens, um traço cultural ainda recorrente, pois, desde a invenção do romance, o hábito solitário de leitura era mais frequente para mulheres, sobretudo, ao que parece, pelo tempo livre doméstico. Entretanto, esse hábito nos séculos 18 e 19 também era muito criticado, pois a leitura era considerada um prazer solitário, uma masturbação pelo intelecto e pela imaginação, sendo alvo de ataques e até de perseguições. Pelos homens, claro.

 

Ainda conforme dados da pesquisa, que ouviu em torno de 5000 pessoas alfabetizadas ou não, o número de leitores jovens (18 a 24 anos) cresceu de 53% (2011) para 67%, a meu ver potencializados pelo mercado de histórias fantásticas, sagas, HQs e também pelos “livros de Youtubers”. Os fatores que mais influenciam na escolha do livro, principalmente para o público adulto, estão o tema ou assunto (30%), autor (12%!), sendo que dicas de outras pessoas, título e capa tiveram o mesmo percentual (11%), o que mostra o desprestígio do nome do artista em detrimento de seu trabalho. Nem tão surpreendente assim, para mim, foi perceber que indicações de professores são apontadas por apenas 7% dos respondentes, o que parece revelar mais um ponto da crise de importância do Educador na formação dos sujeitos. Para 67%, não houve uma pessoa que incentivasse a leitura em sua trajetória, mas, dos 33% que a reconheceram, citaram a mãe ou uma figura do sexo feminino como a principal responsável.

 

Outro dado que me chamou a atenção foi a leitura estar em 10º lugar na preferência dos entrevistados para atividades em tempo livre. Perdeu em primeiro lugar para a televisão (73%), que por sua vez perdeu espaço em relação a pesquisas anteriores, mas ainda assim com alto índice de preferência; em segundo, ouvir música (60%); depois seguem a internet (47%), reunir-se com amigos ou família (45%), assistir filmes e vídeos em casa (44%), usar o WhatsApp (43%), escrever (!) com 40%; usar Facebook, Twitter ou Instagram (35%), ler jornais, revistas ou notícias (24%), ler livros em papel ou digital (24%) o mesmo índice de praticar esporte. Curioso é perceber que muitos respondentes preferem escrever a ler, o que me parece uma incoerência, pois uma atividade está intrinsecamente ligada à outra.

 

Em comparação, uma pesquisa da Market Research World publicou o Índice de Cultura Mundial, ranking sobre hábitos culturais de diversos países, incluindo a leitura. Qual não foi minha surpresa ao saber que os cinco primeiros países com mais horas de leitura por semana são, em ordem decrescente: Índia (10h42min), Tailândia (9h24min), China (8h), Filipinas (7h36min) e Egito (7h30min). Seguem República Tcheca (7h24min), Rússia (7h06min), Suécia e França (6h54min), Hungria e Arábia Saudita (6h48min), Hong Kong (6h42min), Polônia (6h30min), Venezuela (6h24min), África do Sul e Austrália (6h18min), Indonésia (6h), Argentina e Turquia (5h54min), Canadá e Espanha (5h48min), Alemanha e Estados Unidos (5h42min), Itália (5h36min). No último quadro, os países pesquisados com menos horas por semana, onde estamos nós: México (5h30min), Reino Unido (5h18min), BRASIL (27º colocado com 5h12min), ganhando apenas de Taiwan (5h), Japão (4h06min) e Coréia (3h06min). Está visto porque duas principais potências mundiais (Índia e China) estão nas primeiras posições do ranking.

 

De minha parte, sempre tive boas influências para me tornar um leitor: minha mãe, apesar de gostar, não lê com tanta frequência, mas nos comprava livros; minha tia materna adquiriu o gosto do meu avô e sempre leu muito e comprava livros, hoje tem uma biblioteca comunitária em sua casa; alguns primos de minha mãe têm fabulosas bibliotecas, que me fascinavam desde criança e nas quais pude descobrir muitos autores; um tio torto paterno, que faleceu jovem, era professor e tinha uma incrível biblioteca também; por fim, a escola, que sempre nos cobrava leituras a cada ano, ainda que hoje discorde de algumas escolhas, por exemplo, ser obrigado a ler “Dom Casmurro” aos 14 anos de idade (um desperdício para uma obra que merece maturidade para ser fruída e compreendida). Tudo isso corroborou na apetência para a leitura, o que contribuiu imenso para ser escritor, ainda que muitas pessoas considerem como um passatempo: “Faça como um hobby” era o que ouvia, sempre. É o clichê recorrente de uma sociedade que nos impõe sonhos de consumo e não sonhos de ser.

Como não cultivamos a necessidade das Artes (reconheço aquilo de que preciso), não há sentido em vê-las como um ofício, a não ser como diversão e expressão do indivíduo. E, por outro lado, qual artista pensa no seu ofício como algo importante aos outros? (Esta é outra questão que envolve muitos de nós, profissionais ou não, muitas vezes encerrados em nossos próprios desejos, necessidade de expressão e exibicionismo). As Artes são imprescindíveis em nossa formação subjetiva (intelectual, sensível e afetiva), parece não haver dúvida, precisamos reconhecer sua importância para a nossa subjetividade, para uma sociedade mais humana e sensível.

 

Temos acompanhado relevantes transformações em nossa Educação, principalmente Universitária, apesar de ressalvas, mas ainda não tomamos consciência de que mudanças estruturais começam na Educação Pública Básica, Fundamental e Média, na valorização dos professores e no incentivo à leitura e ao conhecimento. Estamos longe, infelizmente, de uma sociedade emancipada culturalmente, de cidadãos e cidadãs sensíveis ao seu próximo e ao seu entorno. Temos visto também a proliferação de eventos literários por todo o país, mas em que medida apenas transformam escritores em celebridades e estimulam o consumo pelo consumo? Para tudo há prós e contras, acredito que sejam importantes para a acessibilidade à literatura, a aproximação entre autores e leitores e a troca de experiências de leitura. Há muito que fazer e podemos todos colaborar, começando por nós mesmos. Quantos e quais livros lemos? A quem influenciamos e compartilhamos este gosto ancestral pelas histórias?

 

Sigamos! Boa semana!

 

Próximo texto (09/07): Um Escritor e seus dois Filhotes

 

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