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Parece coisa de novela, mas não é

Uma das pautas abordadas pela telenovela global #AForçaDoQuerer é a questão das pessoas transgênero, por meio da personagem Ivana (Carol Duarte) e, mais recentemente, de seu amigo Tê (Tereza/Tarso Brant), que a ajudou inclusive a se descobrir e a se reconhecer. Entretanto, em conversas com minha mãe, que para mim é uma das referências de público televisivo médio (ou seja, que faz parte do grupo que tem a telenovela como entretenimento regular, passando de uma a outra para se distrair e ocupar as noites), percebi que, apesar de esforços e méritos da autora Glória Perez em apresentar e discutir o tema, para ela parecia “coisa de novela”. Fiquei imaginando quantos telespectadores podem ter a mesma percepção, pois a natureza ficcional desse produto cultural, ainda que muitas vezes em diálogo com a vida, às vezes não consegue comunicar o quão reais são algumas personagens e situações vividas por elas.

 

Não sou telespectador assíduo deste produto, mas vejo sempre que posso ou quando algum capítulo me interessa e acompanho notícias e postagens nas redes sociais e mídia especializada. Também sei que muitas pessoas transgênero e suas instituições de representação têm questionado aspectos e abordagens da autora sobre a personagem, o que deve ser levado em consideração, ainda que a ficção muitas vezes não dê conta integralmente de representar a realidade.

 

Aviso desde já que o interesse deste texto é, sobretudo, tentar esclarecer mais questões sobre as pessoas transgênero por meio da narrativa envolvendo Ivana, embasado em discussões que temos travado regularmente no nosso grupo de estudos NEEPEC da Fafich/ UFMG sobre performatividade de gênero, amparados principalmente no pensamento da filósofa norte-americana Judith Butler. Este texto também não tem pretensões científicas, mas ensaísticas, e nem se propõe a envolver tudo o que cerca o assunto, demasiado complexo. Pretendo me comunicar com um público mais amplo, ao qual pertence a minha mãe e outros possíveis interessados.

 

Perguntei recente em meu perfil no Facebook como pessoas da minha rede e que estivessem acompanhando a telenovela me contariam a história de Ivana. Foram 10 curtidas na postagem e apenas duas amigas se prontificaram a responder, sendo que um terceiro comentou que não conhecia. Sendo #AForçaDoQuerer uma das maiores audiências do horário nobre global e já sendo considerada por críticos como uma das melhores da autora, fiquei pensando o que pode ter motivado a desmobilização em participar da enquete. Talvez muitos não se interessem pelo assunto ou personagem, talvez outros não saibam como narrar ou mesmo não estejam compreendendo o que se passa. É bastante compreensível, pois ser transgênero, por exemplo, desconstrói paradigmas culturalmente e socialmente instituídos como a relação entre sexo biológico/ gênero e sexualidade e é novidade para muita gente. Principalmente porque as principais instituições religiosas cristãs ignoram (e algumas demonizam) o assunto. De outro lado, percebo também um empenho da emissora em abordar e esclarecer o tema para o grande público em outras atrações como telejornais, a série “Quem sou eu?” de Renata Ceribelli para o Fantástico, as últimas temporadas de “Amor & Sexo” de Fernanda Lima, a série “Liberdade de gênero” do canal a cabo GNT, participações e entrevistas no “Encontro com Fátima Bernardes” e “Conversa com Bial”, por exemplo.

 

Minha amiga Thaís Pacheco, que está assistindo #AForçaDoQuerer mesmo vivendo na Austrália, ofereceu uma boa narrativa sobre Ivana: “Ela é uma mulher tratada como adolescente que se descobre transgênero. Porque nem ela nem ninguém consegue entender o que está acontecendo com ela. E quase ninguém apoia, incluindo a terapeuta. Ela é super atormentada e confusa. Mas agora vai mudar porque ela conheceu a Tereza Brant que explicou tudo pra ela, acaba de fazer amizade com uma travesti que também está ajudando ela (e o público) a entender as diferenças e preconceitos e conseguiu o apoio da melhor amiga, que também é sua prima. E ela é apaixonada por um homem, [assunto] que foi a última discussão com a terapeuta. Ela vai começar a fazer o tratamento para a mudança de sexo sem consultar ninguém. E a mina que faz a Ivana é uma PUTA atriz.” Outra amiga, Elizabeth Cavalcanti, em perspectiva destinta, explica que “Nós, espíritas kardecistas, sabemos que acontecem espíritos trocados, quero dizer, o espirito feminino reencarna num corpo masculino e o espírito masculino em corpo feminino, simples assim. Se as pessoas entendessem um pouquinho!!!! Ivana não tem sido compreendida por orgulho, ignorância e entendimento. Eita ignorância desses personagens! Glória Perez é fantástica! A atriz é competente!”

 

Em primeiro lugar, uma pessoa transgênero, de forma mais geral, é aquela que não se identifica com o gênero que lhe foi atribuído em função de seu corpo e sexo biológico, por isso precisa transcendê-los. É como se fossem duas pessoas diferentes no mesmo espaço: uma que tem a alma, a personalidade e sua expressão em um gênero, e outra que está determinada por outro gênero por seu corpo físico e sexo biológico. Ou seja, são pessoas que não se reconhecem no próprio corpo e nas regras de gênero a elas estipuladas, que incluem também as travestis. Toda a busca de Ivana, do início da trama até as últimas semanas, foi compreender por que não se reconhecia em seu corpo, por que lhe incomodavam os seios e todo o aparato socialmente determinado para as mulheres, roupas, maquiagem, sapatos, comportamentos, desejos e escolhas etc. Nem a família e nem a terapeuta (que na trama representa uma parte da categoria mais conservadora) conseguem compreender o que se passa com a personagem ao recusar tudo que se refere às mulheres ou ao feminino e se identificar com o masculino.

 

Há diversas pesquisas e considerações sobre o fenômeno, algumas vindas da filosofia, da psicanálise, da medicina, mas são ainda questões muito especializadas e restritas e por isso a maioria das pessoas e dos profissionais não está habituada a identificar, discutir ou mesmo a dialogar/ conviver com pessoas dessa natureza. Para a filósofa Judith Butler, sexo, identidade de gênero e performance de gênero são distintos, pois o primeiro está relacionado à constituição biológica, o segundo a como a pessoa se compreende e o último a como ela performa seu gênero: “O gênero não deve ser construído como uma identidade estável ou um locus de ação do qual decorrem vários atos; em vez disso, o gênero é uma identidade tenuamente constituída no tempo, instituído num espaço externo por meio de uma repetição estilizada de atos” (Problemas de gênero, Ed Civilização Brasileira, 2015, p. 242). E há ainda a questão da sexualidade para além do gênero, ou seja, por quem sentimos atração física, emocional e sexual.

 

Dessa forma, Ivana só foi compreender o seu sofrimento ao conhecer Tê, personagem que tem a mesma narrativa que a sua e já realizou a transição de gênero: ele nasceu no corpo de uma menina e depois de uma série de transformações, reconhece-se em outro corpo diferente, mais próximo do masculino. A relação entre ficção e realidade nesse encontro tem sido o ponto alto da subtrama de Glória Perez. Ao convidar uma pessoa real, Tereza Brant, para participar do folhetim, a autora tenta mostrar que o tema está para além das telas, mas na vida. Entretanto, para minha mãe e acredito que para muitos telespectadores, não estava tão claro que o ator que interpreta Tê fosse “de verdade”, alguém que nasceu num corpo diferente de seu gênero, por mais que o texto tentasse esclarecer e que fosse até mostrada uma foto de quando ele era uma menina.

 

Na vida real, Tereza Brant passou a se chamar recentemente de Tarso Brant, mudança social de nome após sua transição física, de identidade e de performance de gênero. Entretanto, na telenovela, seu personagem foi nomeado como Tê, abreviação de Tereza, criando uma ambiguidade entre realidade e ficção. Pelo fato de Tarso ser um ator profissional, essa ambiguidade pode criar mais confusão entre membros do público. Há alguns capítulos que não vejo a novela, não sei se a história de Tê já foi melhor explicada ou aprofundada. De qualquer maneira, a entrada desse personagem representou a virada no drama de Ivana que, ouvindo seu relato, identificou-se com ele e passou a pesquisar sobre pessoas transgênero na internet. Vendo vídeos de Youtubers, lendo artigos e reportagens, Ivana tomou consciência de sua realidade, e, aliviada, pois temos que reforçar o quão sofrido é não ser quem se é, decidiu passar pelo mesmo processo de transição de gênero, que envolve muitos aspectos e procedimentos como hormônios, mastectomia (cirurgia para retirada dos seios no caso das mulheres) ou cirurgia para retirada do pênis e sua transformação em vagina (no caso de homens) etc. Como o título da novela sugere, o querer tem força e Ivana vai perseguir seu desejo.

 

Além de sua prima, outra personagem que servirá de apoio e compreensão para Ivana, que em breve trocará seu nome social para Ivan, é Nonato (Silvero Pereira), o motorista que esconde sua identidade travesti Elis Miranda, performando em shows e boates. Aliás, Nonato compõe outra subtrama de #AForçaDoQuerer, também relacionada a questões de gênero e sexualidade, que merecem um texto particular. O que vem pela frente na narrativa de Ivan(a) é o enfrentamento do preconceito familiar e social, drama e violência que atingem em cheio essa população, e sua relação com o namorado Cláudio (Gabriel Stauffer). Pois, mesmo se reconhecendo como homem, Ivan(a) é homossexual, ou seja, tem desejo por pessoas do mesmo gênero. Parece confuso, mas é que identidade de gênero e sexualidade podem ser distintos. O espectro de identidades de gênero e sexualidades é amplo, por isso a diversidade é a principal marca da humanidade, ainda que algumas pessoas se recusem a aceitar. Aguardemos, portanto, os próximos capítulos de #AForçaDoQuerer, desejando que a telenovela possa contribuir para maior visibilidade e compreensão do tema e, consequentemente, uma melhor convivência da sociedade com as pessoas transgênero.

 

Boa semana, boa novela, boas leituras!

 

 

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