ESCREVER E COÇAR É SÓ COMEÇAR!

(DIÁRIO DO ROMANCE 02/90) 22 de janeiro de 2020. Minha mãe sempre diz que “Comer e coçar é só começar”. Escrever também. Há mais de um ano com o texto do romance parado, à espreita, à margem, retomar não é fácil, mas consegui começar e rendi a revisão de mais dois capítulos, chegando ao de número 50. Na primeira versão constam 105 capítulos, o que sinaliza ainda muito trabalho. Não é apenas a reescrita do texto, que já é muita coisa, mas a revisão de muitos detalhes e descobertas que não pararam de chegar pela contínua pesquisa e que merecem atenção. Escrever exige comprometimento e rigor, principalmente quando a base são histórias reais, personagens reais, ainda que convertidos em ficção romanesca.

Mas tenho Hilda em minha companhia, com suas bênçãos, olhando-me em minha mesa de trabalho. Explico melhor. Há 20 dias, estando de férias com Gabriel pelo Ceará, sua terra natal, ganhei dele uma escultura de pano de Hilda Hilst, feita pelas mágicas mãos da artista e sua conterrânea Lana Benigno. Foi uma incrível surpresa quando de minha chegada a Fortaleza e, mais do que isso, um espanto, uma emoção muda, quando a recebi de suas mãos, ela sorrindo pra mim, sentada no balanço da Figueira. Fiquei tão entusiasmado que encomendei uma do Mora Fuentes, pois a Lacraia não pode existir sem o seu melhor amigo, irmão de alma, o Sapo. A escultura dele será para presente. E as duas estão aqui comigo, agora, mas só vou revelar a Senhora H para não estragar a surpresa.

Assim, parecendo mais difícil do que é, o retorno ao texto foi luminoso. Relendo os últimos capítulos, misturando-me em êxtase e entusiasmo na linguagem que venho tecendo, logo as teclas voltaram a vibrar em feliz velocidade. Compartilho um excerto das escrivinhanças de hoje, do capítulo 50, quando a Senhora H desiludiu-se profundamente com dois amigos, quase irmãos:

50

A UNICÓRNIA. Os dias subsequentes ao rompimento sangraram pelos poros de corpo, pelas paredes da casa, pelos sulcos da terra, espalharam-se no vento, criaram raízes que cresciam rompendo o chão onde pisava, vertendo-se em terremotos e cataclismas. Foram manhãs, tardes e noites de silêncio e reclusão, que aos poucos davam lugar à depressão pela decepção. Há mágoas difíceis de serem curadas, abrem feridas que jorram o líquido rubro sem estancar. Brucutú fazia o que podia e não podia para consolá-la, para reabastecê-la de energia e vibrações, porém ela estava imersa na culpa, punindo-se severamente por sua ingenuidade. A Senhora H repetia-se em condenatórias:

“Você é uma estúpida, amor, amor, tudo em você não é bondade, você os corrompeu, mostrou o lado fácil das coisas, foi arranjando emprego, petróleo, e deu muitas roupas, jóias também. Olha essa história é muito boa para o teatro, você deveria escrever a estória de uma mulher muito boazinha, estúpida e safada. Uma mulher que resolve dar tudo para os amigos porque os amigos são uns anjos e depois ela fica na merda e os amigos com saco cheio daquela presença angélica mas na merda, matam-na e enterram-na no jardim da casa que não é mais dela, e sim deles. Depois fazem uma festa dionisíaca sob o luar. Muito bom. Safada, hein? Safada sim, porque na verdade você queria dominá-los, você queria discípulos. E logo uma outra voz de si mesma buscava o acalanto: Não, não queria, eu queria fazer a nossa comunidade, juro. Pare, pare. Essa lucidez escorrendo sobre as coisas. Eles me sugaram, sugaram tudo o que sobrevivia em mim, sugaram a minha fé, deixaram só o luxo em mim. Seria preciso matá-los.”

O desejo se expressava por metáforas, logo ela que não matava uma aranha, uma formiga, compadecida de todos os seres vivos, jamais conseguiria realizara tamanha crueldade e violência. Sim, seria preciso matá-los, mas dentro de si, tão logo as feridas, por milagre, conseguissem ganhar cicatrizes. Abraçada a Brucutú, enquanto o sol queimava no pátio de pedras perfeitas e se refletia em seus semblantes, alguns cães preguiçosos ao largo, a Poeta sentia seu coração exposto e expurgado pelos amigos que amou. Tentava escondê-lo, buscava proteger-se, mas ele insistia em ficar fora jorrando o viscoso da dor. Seria difícil, seria muito difícil, meditava. Dizia-se, no eco do de dentro:

“É preciso que você viva primeiro, que os anos passem, QUE OS ANOS PASSEM LENTAMENTE é preciso que se forme um certo limo sobre o corpo, é preciso sangrar as mãos, o ventre, os pés, o plexo, a mente, e depois vem esse limo sobre a carne, delicado a princípio, apenas, uma matéria transparente, depois mais espessa... e quanto chegar nesse ponto fique quieta, não se exponha demasiado porque qualquer golpe, um esbarrão até, pode fazer sangrar essa matéria. Depois, aos poucos, formar-se-á um invólucro quase duro, e aí você está pronta, aí já se esqueceram completamente de você, aí não te golpearão mais.”

(Continua...)

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