OS DIAS NÃO SÃO IGUAIS

(DIÁRIO DO ROMANCE 03/90) 23 de janeiro de 2020. OS DIAS NÃO SÃO IGUAIS. Novo dia de chuva em Belo Horizonte, chuva incessante, constante, monótona, melancólica, necessária para o abastecimento de água em tempos de aquecimento global e seca, terrível quando, avassaladora, destrói a tudo e todos por onde passa. Tentei ler um pouco pela manhã, prática que tenho buscado uma regularidade nas férias (no momento estou com o ótimo “Glória”, Prêmio Jabuti de Victor Heringer), mas o clima lá fora ficou pedindo preguiça, sono e cama.

Além disso, algumas interrupções da vida ordinária, mensagens para ler, mensagens para responder, trabalhos a serem feitos. Lembro o quanto foi caro para Hilda deixar sua vida ordinária em São Paulo e construir a Casa do Sol para não ser interrompida no seu ofício de escritora. Sei que não é o meu caso, tenho, para além da escrita, trabalhos como professor, dramaturgo e encenador teatral, que vão a todo vapor. De qualquer maneira, tenho tentado ainda nesse limbo antes do retorno das aulas na UFMG, conseguir reservar um tempo para o romance, afinal, preciso e quero finalizá-lo. Inclusive estabeleci um prazo para a redação da última versão: 21 de fevereiro deste ano.

Tendo que sair agora para uma reunião de produção, consegui vencer a preguiça e, ao menos, finalizar o capítulo 50, cujo início compartilhei no diário de ontem. Então, segue abaixo para sua leitura de quem espero merecer um retorno, um comentário, uma crítica, um emoji sequer. O escritor não está mais tão distante dos leitores e leitoras. Para amanhã, previsão de chuva forte, alertas em todos os veículos de comunicação e redes sociais. Espero que tenha mais ânimo para seguir a minha meta com o romance.

Assim, sem mais delongas, a última parte do Capítulo 50 – A UNICÓRNIA:

Amizades profundas são alicerces que estruturam afetos e sua implosão poderia ser uma catástrofe de proporções inimagináveis. Não era mesmo como o amor, que também doía e corroía, mas amores vão e amores vêm, amizades não se substituem, era mesmo outra coisa. A Senhora H sentia-se suja, como se uma carga de lixo emocional a tivesse invadido pelos orifícios, enquanto remoía-se de culpa e tristeza. Tentava não se desacreditar do humano, mas como lidar com aquelas palavras, ditas em voz alta ou em letras de caneta nas cartas, palavras levianas de amor, lealdade e cumplicidade? Palavras curam, palavras envenenam. Chorava, mas não como quem chora em filmes, novelas ou romances açucarados, o choro era pela falta de humanidade que havia naqueles gestos de escárnio e blasfêmia contra seu companheiro.

Brucutú procurava animá-la, repetindo o que costumava dizer, de sua desconfiança dos dois irmãos, e de quanto ela se doara a eles e que logo tudo iria se esvanecer. A escritora sentia que não sabia mais quem era, que sua identidade estava enevoada, olhava-se no espelho do banheiro e via seu rosto tripartido, de um lado da Irmã Lésbica, de outro o Irmão Pederasta, e no centro, ela mesma. Decidiu reler “O homem das mil faces”, único livro que os havia emprestado e que fora devolvido. Precisava reencontrar-se, refazer-se, recuperar-se. E, uma tarde, tendo decidido caminhar até a Figueira para contemplar o pôr-do-sol escaldante, debaixo de suas folhas e galhos, mirou ao lado da casa um animal que desconhecia. O quadrúpede estava de costas, os pelos muito brancos, balançava o traseiro, enquanto o dorso abaixava-se para se alimentar de grama. Não se lembrava da nova presença na casa, seria uma surpresa de Brucutú?

Seguiu contemplando-o, fascinada pelo porte, as patas firmes sobre o solo. Finda a refeição, o quadrúpede virou-se e ela então foi acometida por um susto que lhe trancou a garganta: ele tinha um corno na testa, era um unicórnio, mas como? Selvagem, indomesticável, símbolo da pureza, da esperança e do amor, refletia sua majestade, poder e liberdade de ser único, uno. Estupefata diante da imagem e da beleza da singularidade e de como deveria ser bonito e triste ser apenas um de uma espécie, a Senhora H viu-se nele, sentiu-se como ele, solitária e única, vivendo num mundo de humanos execráveis. Desejou tanto e ardentemente que se transformou ela mesma naquele ser de encanto e beleza. Ela era a Unicórnia e assim o seria por toda a sua existência, uma figura rara nas letras e na literatura do país.

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