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ESCREVER É INSISTIR

DIÁRIO DO ROMANCE #8. 28 de janeiro de 2020. A tarefa de terminar a última versão do romance @acasadasenhorah segue de vento em polpa. Apesar de um dia cheio de outras tarefas, logo depois do almoço e de uma rápida siesta, voltei ao arquivo agora sempre aberto, sempre à espreita da continuidade. Reli, retomei algumas notas e comecei a esboçar os capítulos seguintes. O ritmo estava lento, mas escrever é insistir, é ficar debruço, em cima. O texto é feito de insistência e muito trabalho.
As notas do Mora Fuentes verteram-se no capítulo 54. O ANO QUE NÃO TERMINOU, iniciado com um apanhado dos sucessivos acontecimentos que marcaram 1968 no Brasil e no mundo e o ano em que ele aos 17 anos conheceu Hilda que tinha 38. 


Pausa para caminhada no bairro, retomando uma prática que se tornou obrigatória e necessária para quem, como eu, descuidou-se do corpo no último ano e ganhou quilos a mais que começavam a preocupar a saúde. Também marquei consulta com uma Pneumologista para a próxima semana, não posso mais adiar a verificação de uma tosse insistente e o exame completo dos pulmões, há quase 25 anos acostumados a receber a fumaça do tabaco e muita nicotina. Todos na Casa do Sol fumavam, Hilda, Mora Fuentes, Olga, Caio Fernando Abreu, Lygia Fagundes Telles, e penso o quanto o cigarro já foi cultuado, presença marcante na intelectualidade e no show business e hoje é tão condenado pelos inúmeros males ao corpo, levando milhares de pessoas à morte. Mas ainda estou com o meu aqui aceso, enquanto escrevo e penso sobre tudo isso.

 

 

Depois da caminhada, o bem-estar, o ânimo de voltar ao trabalho e um novo capítulo surgiu, desdobrado do anterior, pois percebi que merecia um destaque, uma ampliação. Trata-se do casamento de Hilda com Dante Casarini, cinco anos depois de estarem juntos. Enquanto escrevo, desaba mais um temporal em Belo Horizonte. Faço uma pausa para esquentar a sopa, enquanto recebo no wapp inúmeros vídeos da cidade em estado de calamidade e alagamento. Onde vamos parar? 

 

Findo mais um capítulo, texto revisto, segue agora para sua apreciação, cara leitora, caro leitor:

 

55

 

CERTIDÃO DE CASAMENTO. O cotidiano era tecido pelo mais doméstico, uma empregada com problemas conjugais, um colono e sua família precisando de auxílio, as despesas que somavam dívidas, e algumas turbulências, como o Vizinho que derrubara a cerca da Casa, jogando a porteira abaixo com um caminhão, para passar com seu gado. Enfurecida, a Senhora H avançou contra ele, na soleira da porta da sala, e esbravejou: Eu te mato! Era apenas uma ameaça, porém, rendeu-lhe uma dor de cabeça, uma queixa na Delegacia da Cidade feita pelo Vizinho Truculento, tendo o apoio da mãe dela, a Senhora de Chapéus, que variava cada vez mais o juízo, começando a ser assaltada pelos males da alma e da mente.


O delegado intimou-a a depor e prestar esclarecimentos. Acompanhada por Brucutú, dirigiram-se na velha Brasília e colocaram-se diante da autoridade e do Vizinho, que aguardava. O delegado inquiriu, A senhora vai matar esse homem? Ela sustentou o silêncio. Quem cala consente, advertiu. Quem cala não diz nada, retrucou a Poeta. Brucutú interveio: É que ela está nervosa, podemos retomar? O que você é dela?, retrucou o delegado. Sou, sou... um amigo, contrapôs, sendo honesto à situação que viviam, não como marido e mulher, como companheiros. Então cala a boca, sentenciou a autoridade e tentou conciliar as partes envolvidas na disputa da cerca e do território. A queixa foi arquivada.


Ao saírem da delegacia, a Poeta não titubeou: Vamos nos casar, Brucutú, não precisamos desses constrangimentos e humilhações. A notícia agradou à Senhora de Chapéus, sua mãe, que não gostava da situação amaziada, preferia a filha com um registro para ser respeitada. De qualquer modo, foi um pretexto para voltaram a se falar, ainda que a convivência ficasse cada vez mais difícil, o que deixava a Poeta magoada. Ela, de seu lado, resolvia assim uma questão prática, ao ceder à burocracia. Ninguém mais poderia lhe aviltar, não pela falta de uma certidão de casamento. Da delegacia procuraram o cartório, certificaram-se dos documentos, decidiram pela separação total de bens e dias seguidos Brucutú oficializou a entrega dos papeis.


A confirmação do ato ficou marcada na própria Casa da escritora e seu companheiro, que recebeu a ilustre presença de sua mãe, não a dela que se recusara a uma cerimônia sem cerimônia. A noiva trajava um camisão amarelo e calça branca e sapatos baixos, o noivo também calça branca e uma blusa escura de gola rolê (fazia um sol de arder primavera no campo, mas era a melhor que tinha para a ocasião). 


Na Certidão, lida em voz alta pelo Juiz de Paz, constavam ele, Agricultor, ela, Advogada, quando na realidade eram Escultor e Escritora, e, cumpridas as formalidades, assinaram os papeis na sala mesmo, envoltos pelos cães que ladravam, esfuziados, na companhia da Vizinha e da Governanta. Abraçaram-se os noivos de contentamento, finalmente depois de cinco anos estavam oficialmente ligados um ao outro e ela escolheu acrescentar o sobrenome dele ao dela. Entretanto, o amor tem outro tempo e se transforma no dentro, transiciona em estágios sutis, dando lugar a novos que podem chegar inesperados.

 

Até amanhã, leitoras e leitores!


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