UMA PEÇA, UM ROMANCE

DIÁRIO DO ROMANCE #10 30 de janeiro de 2020. Hoje volta ao cartaz a peça “A Obscena Senhora H – Paixão de obra de Hilda Hilst” na Campanha de Popularização do Teatro e da Dança de BH, em quatro únicas apresentações, de quinta a sábado às 20h e domingo às 19h no Teatro Marília. A dramaturgia da peça saiu das páginas da primeira versão do romance @acasadasenhorah. Não foi a primeira vez que isso ocorreu, em 2015 estreei o texto e a direção de “EuCaio”, solo de Matheus Soriedem, que também saiu do romance, ao narrar alguns episódios da juventude do escritor Caio Fernando Abreu quando viveu na Casa do Sol e conviveu com Hilda, porque estava foragido do DOPS durante a Ditadura Militar, e se tornaram grandes amigos. Mas isso é tema para outra conversa, então voltemos à “Obscena Senhora H”: 


Tudo começou com um convite da atriz Luciana Veloso, quando estava finalizando sua graduação em Teatro na UFMG para que fosse seu Trabalho de Conclusão de Curso. Tinha sido seu professor numa disciplina e ela, ao pesquisar sobre Hilda Hilst, encontrou minhas pesquisas e trabalhos sobre a autora. Procurou-me, convidando para escrever a dramaturgia, naquela altura a proposta seria uma adaptação do livro “A Obscena Senhora D”. Conversa vai e vem, coloquei para a Luciana que em São Paulo havia recente uma montagem muito bem-sucedida do livro, protagonizada pela atriz Susan Damasceno, e que, também por isso faria outra proposta, onde entrou o romance em processo.

 

Durante minhas pesquisas na Casa do Sol, descobri a história do tumultuado romance que Hilda tinha vivido no início dos anos 1980 com Wilson Hilst, um primo distante e 20 anos mais jovem que ela. Encontrei bilhetes, entrevista onde mencionava o caso paralelamente à escrita de “A Obscena Senhora D”. Havia uma suspeita de que os personagens Hillé e Ehud poderiam ser Hilda e Mora Fuentes, que também tinha sido amantes, entretanto, verificando o texto da novela e as descrições que a autora fazia de seu primo, além de uma carta dela para o Mora Fuentes, não me restou dúvida de que Ehud era uma ficcionalização do Wilson, e Hillé a dela. Detalhes sobre ele como o corpo muito magro, longilíneo, as sobrancelhas eriçadas, o fato de detestar perguntas e ela ser uma grande questionadora em busca de respostas, além de afirmar que o livro seria dedicado a ele, levou-me a cruzar a vida e a obra de Hilda que, por sua vez, não escondia essas relações: “Escrevo sobre o que conheço, sobre o que vivo, sobre as pessoas com quem me encontro”, respondia em algumas entrevistas, o que atribui à sua obra, sobretudo a prosa, algum caráter autoficcional. 


A autoficção, termo cunhado por Serge Dubrovsky em 1977, tem merecido a atenção de inúmeros escritores e pesquisadores desde então, que vêm travando debates e reflexões em torno das discussões entre realidade e ficção na produção de autobiografias e autoficcões. De maneira breve, arrisco afirmar, por tudo que venho pesquisando, que a autoficção é uma narrativa em que o narrador, o personagem e o autor são a mesma pessoa e que, ao narrar episódios reais de sua vida, toma a liberdade de ficcioná-los. Ficção, de seu lado, não é sinônimo apenas de mentira e falsidade, mas sim de um modo de contar o que se passou. Assim, a autoficção tem a liberdade que a autobiografia muitas vezes não permite ao tentar se aproximar ao máximo dos fatos.

 

A proposta de cruzar a biografia de Hilda, seu romance com Wilson, enquanto escreve a novela “A Obscena Senhora D” interessou a atriz, que viu a oportunidade de criar um trabalho inédito, que demandasse estudos, pesquisas e experimentações, e um desafio triplo de interpretar a si mesma (a atriz como narradora), Hilda Hilst e sua personagem Hillé. Começamos a levantar excertos da novela e do meu romance e, logo que os ensaios começaram e por coincidências da vida, acabei assumindo também a direção do trabalho. Foram meses de encontros muito ricos de criação, que se somaram à parceria com Sitaram Custódio na direção de movimento, e em seguida com os demais criadores, destaque para a belíssima trilha de Daniel Nunes. A montagem ultrapassou o TCC de Luciana, foi concluída posteriormente e estreou no circuito profissional com produção de Janine Avelar, passando por vários teatros de Belo Horizonte, além do Festival de Verão de Ouro Preto e Virada Cultural de Muriaé, e além disso rendeu a Luciana a indicação de Melhor Atriz no Prêmio Sinparc 2019.

 

 

Batizada como “A Obscena Senhora H”, o texto apresenta os desafios da mulher escritora, seus preconceitos e dilemas, e o que hoje chamamos de relacionamento abusivo. Wilson, sedutor e possessivo, não gostava que Hilda escrevesse, dizia que ela se parecia a um homem, além de interferir em suas amizades, construindo um cerco de paixão e quase morte. Não posso e não devo dar spoiler, espero que o texto tenha incitado sua curiosidade de ver o espetáculo, que tem atingido, sobretudo, o público feminino (mas é importante que os homens também vejam!). Hilda não gostava de rótulos, não aceitava ser chamada de feminista, mas em toda a sua vida lutou pela liberdade das mulheres e pelo direito ao corpo, ao sexo e à independência. Um pouco disso tudo você pode encontrar na trama do espetáculo, nesse jogo de vida que se transforma em arte. Para ilustrar o Diário, uma imagem da peça feita por Guto Muniz, e a única fotografia já encontrada de Hilda e Wilson na Casa do Sol, feita pela amiga e também escritora Lygia Fagundes Telles. Fico por aqui, daqui a pouco chego no teatro para fazermos a passagem de luz e ensaio técnico, esperando o público que virá nos assistir a partir de hoje e até domingo. 


Até amanhã, leitoras e leitores!


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