FICCIONAR O REAL?


DIÁRIO DO ROMANCE #16 / 5 de fevereiro de 2020. Deparei-me (mais uma vez, e virão outras!) com o dilema que envolve este romance desde o início: as relações entre a ficção e a realidade e as muitas reflexões que saem deste encontro. Uma das personagens, que está felizmente viva, em conversas pelo Messenger, me escreveu: “E o romance é ficção total ou tem coisas verdadeiras? Vai ser estranho me ver lá em situações que eu não vivi”, ao que respondi “O romance é ficção e não ficção, a ficção entra quando preciso alinhavar o que pesquisei”. Tentei traduzir numa breve conversa internética, mas agora, aqui no diário, tentarei explorar melhor essa ideia.

Estou partindo, em primeiro lugar, da minha experiência de um dia ter ganho um livro de Hilda Hilst, uma autora para mim (e para muitos) desconhecida, mas absurdamente genial e fascinante, de ter saído em pesquisas sobre ela até encontrá-la pessoalmente em sua casa, estabelecer várias relações de parcerias e amizade, tornar-se amigo da casa e de seus amigos, retornar à casa eventualmente, e um dia me propor a tarefa de escrever uma história sobre tudo aquilo que conheci, que me transformara como pessoa e escritor e o quanto acredito que muitas outras pessoas deveriam conhecer.

Depois, o processo intenso de criação, que envolveu nos últimos 7 anos pesquisa bibliográfica (e envolve ainda, já que a essa personagem acabou de lançar um livro sobre sua experiência e, claro, quero e preciso lê-lo antes de terminar a escrita), pesquisa documental (tanto no acervo da própria Casa do Sol quanto o da Unicamp), iconográfico (muitas, muitas fotografias), videográfico (filmes, documentários, programas de TV, entrevistas), observação participante (as várias visitas e residências na Casa do Sol), entrevistas e conversas informais com personagens que estão vivos, outros que faleceram depois de nosso encontro, das minhas memórias e experiência. Nesse sentido, assumo inteira responsabilidade sobre o que estou escrevendo, uma versão, uma versão minha, de tudo o que vivi, li, pesquisei e conheci.

Tudo junto e misturado, esse conjunto se apresenta para mim como fragmentos, muitos desconexos ou fora de uma ordem historiográfica, mas que o texto do romance busca estabelecer contatos, conexões, colocar à prova documentos versus depoimentos, e assim, alinhavar, preencher algumas lacunas, criando uma tessitura literária que pareça coesa, ao menos. Uma coisa é certa, todos os personagens, incluindo o autor, estão ficcionados de alguma forma, nomeados a partir dos apelidos que ganharam na casa ou que portavam anteriormente: Senhora H/ Lacraia, Brucutú, Lebre, Sapo, Pequena, Ju, Vivo, Jota, Príncipe, Anuska etc. Outros ganharam nomes que criei como o Senhor A, a Senhora de Chapéus, o Irmão Mais Velho, o Crítico, o Poeta Louco, o Homem de Terno Branco etc. E um que é absolutamente ficcional, o Senhor Cara de Cão.

De saída, para ampliar minhas reflexões, um amigo e interlocutor me indagou hoje, inbox no Instagram: “Perguntei se vc n fica tenso em representar essas pessoas sabendo que elas vão ler”. Respondi inicialmente “Sim e não”, mas questionado sobre a vagueza da sentença, arrisquei “Fico, mas tento ser muito delicado nessa representação sem criar polêmica”. Sim, é controverso escrever sobre personagens que vão ler o livro, sobretudo nesse contexto em que a ficção também é um imperativo e me impele a imaginar. Se fosse uma biografia (felizmente não é), teria o compromisso de preencher as lacunas de outra forma, sem a fantasia, mas não é isso o que eu quero.

A conversa com meu amigo começou, na verdade, por causa do (excelente) romance (autoficcional) "A resistência" de Julián Fuks, e o momento em que seu personagem mostra o livro aos pais e como eles apontam vários "distanciamentos do real" que havia nos relatos dele, ou, melhor dizendo, o real dentro da ficção, a ficção dentro do real. Agradeço-o por me lembrar que, sim, podem haver muitos "distanciamentos do real" em A Casa da Senhora H e faz parte. Ao entrar pela autoficção e caminhar para biografias ficcionadas, tento construir um painel de como vejo, do que percebo dessas pessoas, algumas bem próximas, outras não.

De qualquer maneira, fico pensando como deve ser para os personagens que vivem depararem-se com essa proposta, de uma ficcionalização de si, fora do real. E se fosse eu, como me sentiria? Como o olhar do outro me veria e me transformaria em texto, em palavras, em imagens? Não sei responder, só poderei dizê-lo se algum dia acontecer.

O que espero, no fundo, é que, sim, se emocionem, transcendam a própria existência para o mundo das letras, que concordem com o pacto ficcional proposto no próprio romance. Afinal, para mim, ficção neste caso é entendida como um modo de contar, que nunca será o real. E o que existiu e como existiu, o que não foi e como não foi, fazem parte da vida que só os viventes podem contar. Há mais coisas nessa seara, mas por hora me despeço, desejando que a ficção, a arte, a representação, nos salve desses tempos de crueldades, obscenidades, obscuridades, ou o pior teatro que se pode fazer da realidade.

Foto: Residência de criação na Casa do Sol, 2012, noite ímpar, quando recebi o nome final do romance, "A Casa da Senhora H". Créditos: Glauce Guima (<3).

Até amanhã, leitoras e leitores! Leiam Hilda!

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