OS DIAS NÃO SÃO IGUAIS


DIÁRIO DO ROMANCE #22/ 11 de fevereiro de 2020. Dia que consegui trabalhar bastante no romance, durante muitas horas, ainda que agora findo o expediente inquieto, inconformado com o texto. Sempre é possível ficar contente com o processo, mas nem sempre com o resultado. Sim, é normal, como em todo o trabalho. Por outro lado, fiz descobertas, ao revistar os arquivos de documentos que tenho no acervo do projeto, como uma carta escrita a mão por Caio Fernando Abreu para Hilda, por exemplo, em que manda abraços para os cachorros da casa naquela altura: Dodô, Sola, Aninha, Flika, Preta, Pinel, Carlota e Caiçara. Fofos, né?

Dia de boas notícias de saúde, na busca pelo que possa ser a tosse que por outro lado melhorou, mas ainda há um caminho a percorrer. O pulmão já está descartado, não há [ainda] o que temer, hora de rever o presente e pensar na oportunidade de um futuro não-tabagista. Dia de aniversário do meu pai, com quem falei pelo telefone, ligação que se estendeu para a mãe e a avó. Disse ontem das saudades de casa e minha mãe comentou que tinha lido sobre a sopa no diário de ontem. Lembrou que não faz há muito tempo e trocamos receita, expliquei como tenho feito a [sua] sopa de ervilhas.

Dia também de acertar outros projetos, de receber mensagens inesperadas de amigas queridas, de ficar recolhido da chuva insistente do lado de fora, um dia bom, diferente do anterior, não igual ao de amanhã. Para o romance, o importante é não deixar de trabalhar. Como dizia a própria Hilda, “escrever é como pegar a enxada”. Então, mesmo que não esteja satisfeito com o capítulo do dia, e amanhã voltarei nele depois de decantados (ou descansados?) os dois (eu e ele), compartilho um trecho que apreciei:

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OS RESIDENTES. Além dos empregados, naquele domingo, apenas a escritora e seu pupilo se encontravam na Casa, porque Brucutú estava acompanhando as obras de uma nova casa da Senhora H, uma casa na praia de Massaguaçu, a 250 quilômetros dali. A viagem de carro, com estradas ainda pouco pavimentadas, durava por volta de quatro horas e ele deveria voltar apenas no fim do dia, o que fazia repousar um silêncio sepulcral na casa.

O Príncipe e ela acordaram cedo, trocaram os sonhos no café-da-manhã e cada um foi para o seu canto de trabalho, ela no escritório e ele no “adendo”, a primeira ampliação que a Casa ganhou para receber residentes. Brucutú, a pedido da Senhora H, abrira uma porta no quarto de hóspedes e construíra uma sala dividida em dois ambientes, com cama, escrivaninha, cinzeiro, mesa, tapetes e poltronas, um lugar de silêncio para se trabalhar, ler, escrever. Príncipe se sentou diante da máquina portátil, fez um carinho em Nikos, que vinha focinhar suas pernas, deitou as folhas de papel em branco, notas, acendeu um cigarro. Talvez terminasse ali seu primeiro romance, iniciado bem antes quando vivia no Sul, e que prometera a leitura à amiga.

A Poeta, do outro lado da Casa, fechou as janelas, acomodando-se na cadeira diante da mesa. Abriu uma edição de Heidegger, com quem refletia sobre o sentido do ser para a morte, a questão central que a perseguia. Dizia o filósofo que A morte é uma possibilidade-de-ser que o Dasein tem de assumir cada vez ele mesmo. Com a morte o Daseiné iminente ele mesmo para ele mesmo em seu poder-ser mais-próprio. Então pensava sobre o seu ser-no-mundo, cuja morte seria a possibilidade do já-não-mais poder-ser, terrível, meu Deus, por que morremos? Quem conseguiria explicar essa violência?, meditava, acendendo novo cigarro.

Passados meio dia e algumas horas, foram avisados que o almoço estava servido na cozinha. A escritora dividiu a angústia de suas leituras com o jovem gaúcho, interessado cada vez mais no convívio intelectual e artístico. Percebia que entrava em contato com a mais alta produção poética e filosófica da humanidade, e a metafísica se cruzava com o misticismo, as perguntas se ampliavam e davam espaço para profundas reflexões. De braços dados, caminharam até a Figueira, acompanhados pelos cachorrelhos que atravessavam distraídos o percurso, enquanto a Senhora H os chamava, afetiva: Dodô! Aninha! Flika! Sola! Preta! Nikos! Caiçara! Pinel! Carlota! Sorria para a matilha que ia crescendo, satisfeita de ter um espaço onde podiam ser naturais.

[...]

Os dias não são iguais. Ainda bem. Até amanhã, leitoras e leitores!

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