SÃO JOÃO BATISMO

DIÁRIO DO ROMANCE #23. 24 de junho de 2020. Hoje, dia de São João, a Casa do Sol comemora 55 anos de sua inauguração, conforme me relatou Dante Casarini em entrevista para o romance #ACasaDaSenhoraH. Para celebrar a principal morada de Hilda Hilst e que tem uma relação intrínseca com sua obra, além de ser reduto e fonte de inspiração para tantos artistas e intelectuais e sede do Instituto Hilda Hilst, compartilho um capítulo inédito do romance:

 

 

SÃO JOÃO BATISMO. Brucutú não cabia em si de contentamento com a Casa que ajudara a erguer e naquele dia levantou-se mais cedo ainda para orientar os trabalhos finais. À Governanta, que andava doente, e ao Motorista, muito velho para afazeres pesados, juntaram-se novos empregados vindos de uma família de colonos da fazenda, os Braga. Dito, o patriarca, ajudava o patrão no trato com os animais e na roça, homem rude, andava armado pra se defender e tinha ciúmes doentios da esposa Izaura, mulher de rara beleza escondida na falta de vaidade, e que cuidava da nossa alimentação. A filha do casal, Fátima, havia fugido para se livrar da violência paterna e andava se prostituindo na cidade quando foi acolhida pela Senhorita H para trabalhar na Casa do Sol. 


As mulheres incumbiram-se da organização e limpeza do dentro da casa, enquanto os homens encarregavam-se dos móveis e tudo fora da casa. A Governanta cuidava dos pertences pessoais da patroa, roupas, calçados, acessórios e artigos de beleza, Fátima das roupas de cama, mesa e banho, Izaura do preparo da alimentação. Dito compunha as paredes da sala pregando os quadros e obras que a Senhorita H ganhara de Mira Schaendel, Maria Bonomi, Aloisio e Gilda Leiner, Antonio Roseno, Waldomiro de Deus, Tomie Ohtake, Cláudio Matsuno, Felipe Cohen, e também retratos emoldurados da família e amigos da dona da casa. Um relógio de pé de madeira foi instalado ao lado da porta que dava acesso ao pátio. 


A Senhorita H cuidava pessoalmente do escritório e da biblioteca, orientando Brucutú na disposição de seus raros e preciosos livros em estantes de pedra, prateleiras, depois dispôs a máquina de escrever Lettera 22 sobre a mesa, acompanhada de papeis de carta, lápis, canetas, creme para as mãos, uma imagem de Buda, outra de São Judas Tadeu, blocos de notas, cinzeiros e muitos maços de cigarro. Assentou seus autores favoritos, como se lhes pedisse bênçãos para a nova casa, Georges Bataille, Nikos Kazantzakis, Franz Kafka, Fernando Pessoa e Jorge de Lima. Sentou-se, era muito trabalho, desacostumada que estava de fazer qualquer coisa doméstica, sempre amparada por alguém.


Findo o trabalho grosso, com a Casa finalmente de pé, Brucutú tratou de acender a lareira, para a qual Dito trouxera lenha suficiente para se aquecerem. A falta de um jardim no entorno da casa intensificava os ventos do inverno recém-chegado, era noite fria e estrelada de vinte e quatro de junho de sessenta e cinco, dia de São João Batista. 


Reservaram uma caixa de vinho, prepararam arroz branco, galinha ensopada com batatas e farta salada para a ceia, que comeram com o apetite dos justos e dos trabalhadores. A Senhorita H pensava no pai, queria que ele conhecesse a nova obra de sua boneca, desejo impossível, então pensou em escrever-lhe, contando e descrevendo sua nova morada, construída para fazer a obra que ele estava impedido de realizar pela loucura. Também se lembrou da mãe, de quem esperava orgulho de seu feito. Ao fim do jantar, com as taças ao alto para o brinde de inauguração, a Poeta agradeceu com um de seus poemas recentes:

 

Sem heroísmo nem queixa, ofereço-vos
Minha mão aberta. Agora vos pertence.
Queimada de uma luz tão viva
Como se ardesse viva sob o sol. Olhai se possível
A mão que se queimou de coisas limpas.
E se souberdes o que em vós é justiça
Podereis refazê-la como a vossa mão. E depois igualada
Aproveitá-la. A cada hora, a cada hora
E para o vosso pão.

 

Brindaram e batizaram a Casa, felicíssimos, comovidos, e depois muitas risadas, piadas. Abraçada a Brucutú, a Poeta enchia-se de orgulho da nova moradia e da vida que começava. Caminharam até a Figueira, embalados em casacos e acompanhados pelos cães, onde ela rezou três pedidos, as palmas das mãos tocando as cascas grossas do largo tronco: que conseguisse realizar sua obra, que tivesse saúde suficiente e que nunca lhe faltasse o amor. 


Beijaram-se e depois miraram um balão que cortava o céu vindo do clube de baloeiros vizinho, certamente comemorando o santo do dia. O Senhor Cara de Cão observava a cena do alto, sentado num dos galhos da árvore, balançando as pernas, contente, a casa batizada. A Senhorita H meditou: tinha trinta e cinco anos, uma casa e um companheiro, sua vida dali em diante era uma feliz e realizada promessa. Ela era agora a dona da casa, a Senhora H.

 

* * * 

 

O romance #ACasaDaSenhoraH, em fase de escrita da última versão, narra a história da Casa do Sol, chácara da escritora Hilda Hilst (1930-2004) onde ela escreveu a maior parte de sua obra, viveu por 40 anos e construiu sua mitologia, estruturada na convivência artística e intelectual coletiva como modo de vida e trabalho. 


O projeto foi contemplado com a Bolsa Funarte/Biblioteca Nacional de Criação Literária (Edição 2012), desenvolvido desde 2013 em residências de criação na própria Casa do Sol, sede do Instituto Hilda Hilst, e contou com intenso trabalho de pesquisa literária, documental, iconográfica, videográfica, realização de entrevistas e observação participante.

 

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Foto: Acervo do Instituto Hilda Hilst
 

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