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O Ciúme e a Paixão

Há quinze dias, perguntei no Facebook “Qual desses sentimentos vcs acham mais devastador: a paixão ou o ciúme?” e surpreendeu-me a participação de tantos amigos e seguidores.

 

Das 66 respostas, pude contabilizar que: 50% atribuiu ao CIÚME o sentimento mais devastador; em segundo lugar, com 25%, AMBOS; em terceiro ficou a PAIXÃO com 20% e OUTROS (Lealdade, Fome e Indiferença) com 5%. Não há dúvida que tanto a PAIXÃO quanto o CIÚME são sentimentos fortes que nos mobilizam. Alguns chegam a afirmar categoricamente sobre um ou outro e com pontos de exclamação! “A paixão!” ou “Claro, o ciúme!”, afinal, só pode afirmar quem conhece e já os experimentou. Assim, nessa disputa de emoções, vou reunir agora as ideias que foram deixadas nos comentários, buscando uma visão prismática e coletiva nossa sobre a dúvida em questão.

Primeiramente (#FT), há quem ficou devastado só de pensar na resposta! Talvez porque AMBOS, tanto a paixão quanto o ciúme, trazem a incerteza ou um não-lugar, ainda que de formas diferentes. A paixão pode motivar, dar um empurrão para a pessoa tentar algo novo, pra se jogar no desconhecido, enquanto o ciúme pode tirá-la do mundo e fazer perder o chão. Ciúme de coisa que não existe e paixão não correspondida dá empate na devassidão e no sofrimento, é uma dupla encrenca, e, portanto, parece consenso que os dois passam e a relação só vai sobreviver se se transformar em Amor. Para outro, devastador é não ter uma paixão e alguém para sentir ciúmes, ainda que se diga por aí que é melhor estar só do que mal acompanhado. A paixão caminha no infinito rumo ao desconhecido; já o ciúme também, mas em direção à sua própria destruição e que ambos fazem perder a subjetividade, a dignidade, o amor a si mesmo. Sem o amor e o respeito, passamos a ser objeto de outra pessoa, damos a ela o direito de fazer de nós o que quiser. E se ambos são bem dosados não serão devastadores e podem dar até uma apimentada no relacionamento.

 

Passemos para a PAIXÃO que nasce de uma relação bilateral (o ser apaixonado e o ser por quem se apaixonou) e a princípio parece um sentimento muito bom, que anima o espírito e traz ganas de viver, onde até a dor da saudade pode ser gostosa. Mas há quem diga que “paixão-paixão” é sempre forte demais, pois a pessoa nela se acaba ainda que haja prazer nessa entrega. A Senhora H, protagonista do meu romance, gostava de estar apaixonada sempre, mesmo velha e sabedora do que isso custava, já que a Mãe sempre advertira, perpetuando o ditado popular: “Tens um inimigo, deseja-lhe uma paixão”. No início, a Senhora H não entendia, mas depois percebeu que a paixão era uma doença mesmo, uma doença total. Mas também pode ser a centelha de tudo, ainda que seja passageira e um estágio anterior ao amor. Parece mesmo que todo mundo incentiva uma paixão! Entretanto, como só sobrevive o que é alimentado, ela pode acabar numa gama muito maior de desastres do qual o ciúme passa a ser protagonista. A paixão é boa, mas se não tiver reciprocidade, já viu, está feita a desgraça, largamente chamada de “paixão platônica” onde a ficcionalização do sujeito de desejo pode elevar-se a graus intensos, a febres superiores a 40 graus, à cegueira da razão e atos intempestivos e impensados. Portanto, amigos, atenção! A paixão também pode matar; se ficar sob sua forma original mais tempo do que devia, costuma degenerar para vivências adoentadas. Mas, dizem também, que do solo incendiado da paixão ainda há o que brotar e será sempre um novo recomeço. Para Shakespeare “a paixão aumenta em função dos obstáculos que se lhe opõe” e para Freud “A paixão é a volúpia acrescida de ciúmes”, o que nos leva ao campeão de audiência da pergunta.

 

O CIÚME desloca a relação bilateral da paixão para uma triangulação, onde estão envolvidos o ciumento, o alvo do ciúme e a pessoa que o despertou. Por isso, talvez, carregue consigo muitos outros sentimentos como dúvida, medo, receio, insegurança. Aliado à baixa autoestima faz o amante destruir o ser amado acreditando ter justificativa. O ciúme devasta tanto quem sente quanto o sujeito para quem o sentimento é destinado; venda-nos os olhos, tira a chance de olhar para frente, não passa de vaidade impotente. Mas também parece consenso que o ciúme se origina das paixões: se levado ao extremo torna-se tão visível que outros podem intervir, abrir-lhe os olhos, frear de alguma maneira esses impulsos. O ciúme dói, fere, cria histórias ruins, deixa angústias, como aconteceu ao Senhor A, narrador do meu romance “A Casa da Senhora H”: “Soube então o Senhor A de próprio corpo o que era o ciúme. Pela primeira vez ardeu-lhe, quente por dentro, um bolor saindo do esôfago, fortalecendo-se com a bílis no fígado e desaguando no intestino, onde fica retido até a digestão, venha quando vier. Se vier. Temia tornar-se um Bentinho platônico, ainda mais imaginativo, ainda mais melodramático, ainda mais teatral”.

 

Se a PAIXÃO (e consequentemente o amor) são os propulsores da Indústria Cultural (literatura, cinema, música etc.), o CIÚME também rendeu inúmeros clássicos, a saber, “Dom Casmurro” de Machado de Assis, “Alves & Cia” de Eça de Queirós, “São Bernardo” de Graciliano Ramos. Em “Otelo”, clássico de Shakespeare, por exemplo, Iago, por inveja, cultiva o ciúme do protagonista por Desdêmona, insinuando que a amada o trai. O ciúme delirante que tomou posse no coração de Otelo vê a traição de Desdêmona como algo iminente, levando-o a assassiná-la. Alerta-nos, portanto, seu autor: “Acautelai-vos senhor, do ciúme; é um monstro de olhos verdes, que zomba do alimento de que vive”.

 

Seriam incontáveis as referências sobre o ciúme, como a inesquecível personagem Heloísa (Giulia Gam) de “Mulheres Apaixonadas” (novela de Manoel Carlos), mas destaco as lembranças de algumas canções que o imortalizaram: 1) “Ciúme de você” (de Luiz Ayrão, gravada por Roberto Carlos): “Se você demora mais um pouco/ Eu fico louco esperando por você/ E digo que não me preocupa/ Procuro uma desculpa, mas que todo mundo vê/ Que é ciúme, ciúme de você/ Ciúme de você, ciúme de você...”; 2) “O ciúme” (Caetano Veloso): “O ciúme lançou sua flecha preta/ E se viu ferido justo na garganta/ Quem nem alegre nem triste nem poeta/ Entre Petrolina e Juazeiro canta”; 3) “Dor de cotovelo” (também de Caetano): “O ciúme dói nos cotovelos/ Na raiz dos cabelos/ Gela a sola dos pés/ Faz os músculos ficarem moles/ E o estômago vão e sem fome/ Dói da flor da pele ao pó do osso/ Rói do cóccix até o pescoço/ Acende uma luz branca em seu umbigo/ Você ama o inimigo/ E se torna inimigo do amor/ O ciúme dói do leito à margem/ Dói pra fora na paisagem/ Arde ao sol do fim do dia/ Corre pelas veias na ramagem/ Atravessa a voz e a melodia”.

 

(Se você se lembrar de outra referência, deixe aqui nos comentários.)

 

Para finalizar, gosto de recorrer à etimologia, pois na origem de tudo há muita sabedoria. PAIXÃO, substantivo feminino, do latim “passio-onis”, por sua vez derivado de “passus” particípio passado de “pati”, cujo verbo é “sofrer”; portanto, trata-se de um “sentimento ou emoção levados a um alto grau de intensidade, sobrepondo-se à lucidez e à razão”. CIÚME, substantivo masculino, do latim “zelumen, de zeluz”, “sentimento de carência afetiva, de desejo de posse, em relação a alguém ou a alguma coisa”, mas também está relacionado a “zelo”, ou seja, “cuidado, desvelo ardente”. Vejam que interessante, há sofrimento na paixão como há zelo no ciúme. Dá pra entender que AMBOS são sentimentos singulares, mas, dependendo da maneira como são sentidos, podem se confundir e se misturar.

 

O tema é inesgotável e podemos continuar a conversa sobre a PAIXÃO o CIÚME aqui nos comentários. Despeço-me agradecendo a participação dos queridos leitores que, ao responderem nos comentários do meu post, me ajudaram a refletir e a construir este texto:

 

Mauro Sérgio Lima, Ahmed Hamdan, Isabella Lanna, Fernanda Cardoso, Júlia Cruz, Fred La Rocca, Cláudio Moreira dos Santos, Ítalo Joseph, Gael Rodrigues, Lili Castro, Mariana Fontes, Li Santana, Gabriela Dominguez, Matheus Salvino, Janine Avelar, Luany Oliveira, Nayara Vianna, João do Carmo, Saulo Gargiulo Gonçalves, Luiz Hippert, Vivi Oliveira, Natanael Vieira, Daniella Barros, Flavinha Moura de Oliveira, Denise Guimarães, Vanessa Riambau Pinheiro, Cláudia Andrade, Andreia Rocha, Nara Avelar, Natplena Costa, Dany Starling, Paulo Falabella, Zé Will, Jader Corrêa, Mitiko Mine, Ana Karenina Berutti, Marina Pretti, Fátima Rocha, Flavimar Diniz, Danúsia Natália, Josuéliton Machado, Ana Paula Gondim, Antonio de Padua Ubirajara Silva, Frederic Mozart de Salles, Luna Falabella, Renato Barushi, Pati Prates, Lair Assis, Franciane Rocha, Fabiano Persi, Christiane Antuña, Angela Fernandes, Fabricio Miguez, Emerson Rezende, Wesley Marchiori, Daniela Cabral, Elizabeth Cavalcanti, Juliana Macedo Pereira, Sandra Resende Moura, Diego Pereira Ribeiro, Bruno Lelis, Sônia Pessoa, Polyana Horta, Débora Ciociola, Kátia Guimarães Dias, Alessandra Malachias, Carlos Maco Camargos Mendonça, Thais Valadares Macedo e Paulinha Vilarino.

 

Até a próxima! :)

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