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Curar é cuidar

Tinha 10 anos de idade quando a mãe, percebendo evidências da homossexualidade do filho, decidiu levá-lo a uma psicóloga, na verdade “a melhor para crianças” daquela pequena cidade onde viviam. No consultório, envergonhado, encontrou outros colegas de escola que, também envergonhados, foram convidados a se sentarem no chão, em roda. Com muito cuidado, mas certa do que deveria fazer, aos poucos a doutora foi conversando com os meninos (eram só meninos) sobre o que andavam fazendo: “Então, é verdade que vocês brincam de colocar o piu-piu no bumbum?” Nenhum conseguia responder, era demais constrangedor. Talvez uma ou outra cabeça tenha feito um meneio discreto. Silêncio. Então, a doutora teceu o rosário sobre aquela brincadeira que não podia, que eles deviam esperar o momento de namorar as meninas. Que não podia brincar de boneca, alguém aqui brinca de boneca?

 

Silêncio tumular.

 

Ele gostava de boneca, porque boneca é um brinquedo, mas por que não era brinquedo de menino, não sabia. Em casa tinha outros com os quais brincava também, monstros, super heróis, trenzinhos, adorava desenhar, pintar, esculpir, não conseguia distinguir uns dos outros a não ser quando alguém vinha lhe apontar o dedo: não pode brincar com essa de maquiagem. Não pode costurar roupas para aquela. Tem que ser bola, carrinho, só. Mas por quê? Porque sim. Hoje ele pensa que se conseguiu sensibilidade para o mundo foi por se dedicar aos cuidados e a atenção que as bonecas exigem. Se os meninos brincassem mais de bonecas seriam melhores pessoas, melhores pais, mais amorosos e atenciosos com suas esposas e filhos, mais sensíveis aos outros? Se meninas brincassem de carrinho, seriam menos atacadas por “não saberem dirigir”? Preferiu não responder a doutora e foi embora com um “para casa” para a vida.

 

Os instintos gritavam, mas se dedicou a cumprir o que a doutora prescrevera. Não mais piu-piu no bumbum, não mais boneca, não mais quem era. Adolesceu e adoeceu, agora era uma represa com fluxos intensos naturais estancados, represados, coibidos, rígidas estruturas. Era preciso curar-se. Como não queria morrer e não teria coragem para romper, aceito sua condição, sofrendo em silêncio anos e anos, tentou ser o que não era, beijou meninas, começou a namorar meninas, relacionamentos longos e tradicionais, namoro no sofá com sogra e sogro, levava em casa no fim da noite, tudo nos conformes. Conformava-se, mas aquilo que ele era estava ali dentro, guardado, trancado com correntes e chaves numa caixa escura dentro do coração.

 

A mãe assossegara-se, tinha feito o “certo” com a ajuda da doutora que tinha sido muito boa para conter aqueles impulsos com os quais não sabia lidar. Na sua ignorância, no medo dos achaques alheios, na missão cristã da vida em sociedade, a mãe pensara que tudo estava resolvido. Até perceber que o filho tinha se apaixonado, de verdade, por um rapaz. Ela não sabia como se dera, mas para ele, o primeiro beijo sincero e real que tinha dado em toda a sua vida até ali rompera definitivamente as comportas da represa, levando aquelas águas a encontrarem de novo um curso que desconhecia.

 

Apesar do medo e da insegurança, percebeu através de seu corpo que estava vivo, que estava curado e que o mal era outro, era o não ser, era a não liberdade. Rompeu sozinho com a bolsa-represa que o encarcerava e lançou-se à correnteza, respirando leve, levitando. Na página do dicionário “curar” é “cuidar”. Era necessário e fundamental cuidar de si, contra tudo e contra todos, respeitando os limites da mãe e do pai, mas agora não mais “nãos”, a vida e o amor eram soberanos, apesar das cartilhas equivocadas, dos sermões castradores, da vigília cerceada. Aos poucos, o amor da mãe e do pai superaram as próprias represas e reestabeleceram o contato e o convívio. Ele também encontrou lugares e pessoas que o compreendiam, que eram como ele, que eram diferentes dele, mas que estavam juntos na irmandade e no respeito. Ainda que pra muitas pessoas estivesse doente, errado, errante, percebia que o preconceito, a ignorância e o ódio eram a doença. E foi ser “gayche” na vida.

 

Curou-se, mas ganhou um trauma: o trauma de (alguns) psicólogos.

 

Imagem: pintura da série "Criança viada" da artista plástica Bia Leite

 

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