QUANDO O CORPO PEDE SOCORRO

DIÁRIO DO ROMANCE #17 / 6 de fevereiro de 2020. Primeira tarefa da manhã: consulta com uma Pneumologista para verificar a tosse crônica que tem me acometido há bastante tempo, provocada provavelmente pelos males do cigarro. Sou tabagista há 25 anos, sem motivo algum de orgulho, apenas uma constatação do tempo que passa e nem nos damos conta. Mas agora o corpo pede socorro e não é mais possível ignorar, decidi enfrentar o que é que possa ser (claro, espero que não seja nada grave e que haja tempo de parar de fumar). 


A médica pareceu bastante experiente e não poupou perguntas, realizou testes, examinou, chegou à conclusão que minha dependência de nicotina é alta (foi só uma confirmação pelas várias vezes que tentei parar sozinho e não consegui). De qualquer maneira, conversamos, ela pediu raio-x do tórax e da face, que imediatamente providenciei para que na próxima semana a consulta tenha como base os dados. E, antes que saísse do consultório, perguntei se poderia já fazer alguma coisa, ao que ela me respondeu por uma negativa, Siga sua vida até que tenhamos os exames e o diagnóstico.


Passei o dia finalizando a leitura de uma tese de Doutorado para uma banca que vou compor amanhã, o tema muito me interessa, narração em voz alta de textos literários. Chove torrencialmente em Belo Horizonte durante toda a tarde, novos alagamentos, informações pelas redes sociais, santo Deus, quando isso vai parar? Tento evitar os cigarros, lembro do conselho da Dra. Helena, protelo, acabo acendendo um. E, agora, escrevendo esse diário, decidi compartilhar o último capítulo revisto do romance, cujo tema está bem afinado com meu dia de hoje. Boa leitura!

 

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OS MALES DO CORPO, AS DORES DA ALMA. A Poeta andava há um tempo queixando-se de tosses consecutivas, provocadas pelo consumo incessante de cigarros, desabafara com Sapo o receio de ter que parar de fumar. Ele alegou que seria importante verificar, podiam ser outros males, mas todos na Casa fumavam, menos Brucutú. Fazia-se de desentendida e a cada vez que alguém a reprimia, tratava logo de acender mais um. Contudo, precisou ir ao médico e descobriu que estava mesmo mal dos pulmões, o que acabou lhe rendendo a suspensão dos cigarros. Apesar de contrariada, tentou, mas só quem fuma sabe a falta que faz. Sentia tonturas, quase desmaiou, as pernas trêmulas, além do bom humor ter mandado lembranças. Agredia a quem passava, esbravejava contra o corpo que insistia em negar um prazer que lhe era tão caro, tão solitário e necessário. A Governanta, que tentava auxiliá-la e lhe dava cigarros às escondidas de Brucutú, também adoecera e necessitava de cuidados. 


De qualquer maneira, o que mais assombrava a Senhora H era sua mãe, cuja enfermidade ia se agravando conforme passava o tempo, cada vez mais afundada no mundo sombrio da loucura. Com algumas reservas de dinheiro e amparada pelo Irmão Mais Velho, pagava uma cuidadora para lhe dar assistência, mas de pouco adiantava. A Senhora de Chapéus saía às ruas da Capital de madrugada, vestindo apenas a camisola, insultava quem passava, era assediada por mendigos e bêbados. A filha, isolada a quilômetros na chácara, podia agora contar com o serviço de telefonia, um aparelho fora instalado nas suas dependências e era por meio dele que podia receber notícias da mãe. A notícia e o número logo se espalharam e não havia mais sossego em casa. Principalmente durante a noite, cujo soar estridente do aparelho faziam todos sobressaltarem-se em seus quartos, rompendo o silêncio do sono.


Era Brucutú quem pegava a Brasília e seguia para a Capital para socorrer a sogra enferma, recolhê-la das ruas e levá-la para casa. O diagnóstico, arteriosclerose cerebral dupla, apontava uma doença que invertia os sentimentos de quem a possuía. Se gostava de alguém, passava a odiar, se odiava, passava a gostar. A Senhora H fora a principal vítima e a cada novo ataque recebido da mãe, que amava, sentia o coração sangrar. A Senhora de Chapéus perdera a elegância e vivia obcecada por dinheiro, queria dinheiro, muito dinheiro, sempre dinheiro. Portanto, foi presa fácil para uma gangue de estelionatários, chefiada por um homem extremamente sedutor que se aproximou dela, ganhou sua confiança e conseguiu sua assinatura numa procuração em que lhe conferia poder integral sobre seus bens. Os filhos não sabiam de nada e só descobriram quando o desastre desabara sobe a família e os gângsteres ocuparam a Casa Grande da Fazenda com a intenção de lotear o terreno e fazer fortuna.


A escritora recorreu à medicação e retornou aos cigarros, única possibilidade de se manter lúcida e lidar com tanto transtorno familiar. O Irmão Mais Velho procurou-a discretamente, sem que os gângsteres pudessem perceber a presença de seu carro na Casa. Conversaram longamente, trocaram confidências e angústias e, respaldados por Brucutú, decidiram por internar a Senhora de Chapéus no mesmo hospital onde ficara o Pai Poeta, o Pai Louco. Logo tentariam na justiça anular a procuração, reunindo os laudos psiquiátricos dos médicos, pedindo a tutoria da gerência de seus bens para os filhos. A Poeta, antes de dormir, já alterada pelas consecutivas doses de uísque, pensava se também seria vítima da loucura de seus pais.


Até amanhã, leitoras e leitores! Leiam Hilda! 


Acompanhe o Diário de escrita do Romance #ACasaDaSenhoraH de Juarez Guimarães Dias no blog #EscritaEmProgresso https://www.juarezguimaraesdias.com/blog-escrita-em-progresso
 

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